“Me olhei no espelho do banheiro, o único da casa. Tão diferente de tão pouco tempo atrás. Era como se estivesse ficando velha sem ter rugas e sulcos. Minha pele é lisa e branquinha, mas tenho o rosto de uma velha por causa da dor. Não é a mesma dor dos pobres, dos miseráveis de todos os livros de fotografia que insistem em mostrar o Brasil. A dor deles é dura, seca, dor de quem passa sede e fome e trabalha demais para pensar. Minha dor é interna, não curte a pele, não estraga o corpo. Mas meus olhos me delatam. A dor estava toda ali dentro, os olhos fundos, escuros demais. Dor de quem já viu tudo e não espera mais nada. De quem ficou sozinha a vida inteira, encarcerada em si mesma. De quem já viu o nada, o vazio absoluto, a ausência de cor e dor e calor e música e sentimento, já foi engolido e cuspido pelo nada incontáveis vezes, e será de novo, e de novo, e mais uma vez, até a última, quando só sobrar um caroço morto, um esqueleto sem vida. Depois de ver o nada, nada mais espera.”
(Vida de gato, Clara Averbuck)